Desbravando Cavernas – Espeleologia

Nunca deve ser exercida sozinho e o simples fato de se trabalhar em equipe, torna tudo ainda melhor. Explorar cavernas envolve um sentimento de companheirismo sem igual. Uma mão puxa a outra, e mais um obstáculo é vencido. A cada passo, uma vitória. Cada membro da equipe machucado, um elo de união. Lá embaixo, todos se importam com todos.

As  cavernas são obras da natureza com milhões e porque não, bilhões de anos. Dentro delas é possível apreciar diversas formações únicas deste tipo de lugar. As mais comuns são formações do tipo estalactite, que nascem do teto da caverna como estacas apontadas para baixo, ameaçando ingenuamente para quem olha de baixo. Existem as estalagnites, que nascem do chão e vão crescendo como verdadeiros pedestais nos mais diferentes formatos. E existem diversos  outros tipos de formações, cada um com seu nome, sua origem, suas cores e sua beleza.

A fauna dentro de uma caverna é geralmente composta por morcegos e animais albinos, como peixes, aranhas e centopeias. Você pode andar vários metros pisando em estrume de morcegos e até escorregar. Mas os animais são o que menos contam nesta aventura.

Eu estava com uma comitiva grande e tinha todos os equipamentos necessários para uma experiência segura. Desde pequeno, tinha a mania de subir muito em árvores. Estudei em um colégio que tinha árvores de todos os tipos e um grande hobbye na minha infância era subir em árvores. Buscava chegar ao topo delas para de lá apreciar a vista e comer de seus frutos. Era como buscar o pote de ouro na calda do arco-íris: primeiro precisava vencer os obstáculos para depois conquistar o prêmio.

Quando se explora cavernas, não é diferente. Só que ao invés de subir, normalmente você desce…e muito! Você pode descer quilômetros por baixo da Terra e sentir o calor das pessoas, misturado com o cheiro úmido e peculiar deste ambiente. O prêmio vem quando a aventura acaba, geralmente em um espetáculo singular da natureza.  Já vivenciei várias proezas da natureza:

A luz do sol se apaga, para depois em determinados momentos, aparecer por entre as frestas, como um facho de laser. Este facho de luz no escuro causa imagens fascinantes, como o que se pode ver na caverna do lago azul, na chapada Diamantina, uma das obras da natureza mais impressionantes que já ví. Ele termina no fundo de um imenso lago subterrâneo e torna toda a caverna iluminada…de azul! É incrível ver quando a natureza revela o que ela tem de melhor. Para nossos olhos humanos, é como se á água da caverna tivesse um brilho fosforescente, como se a luz brotasse do fundo da água e não de cima como na realidade é.

Eu tive o orgulho de poder mergulhar nesta caverna e sei que hoje é extremamente proibido, em virtude do risco causado pelo turismo desenfreado em destruir este patrimônio. De lá guardo lindas lembranças, principalmente pelo brilho cristalino de suas lindas águas azuis. Em certo momento com meu equipamento de mergulho pude contemplar avistando do fundo do lago e olhando a margem acima: descrevo como enxergar a luz divina, um forte brilho em movimento dentro de uma imensidão azul fosforescente! Sem palavras!

Uma das cavernas que tive o privilégio de explorar junto com uma equipe de pesquisadores da USP, foi na região do Petar. Esta região tem coleções de cavernas para todos os gostos, desde simples turistas que apreciam uma visitação mais “preparada” com escadas, corrimões e para-peitos, até a caverna para espeleólogos profissionais, em que você é obrigado a esfregar seu rosto na lama para se conhecer os limites do outro lado. Eu fiz isso muitas vezes, até descobrir uma camara que eu nunca mais esquecerei. Havia um lençol freático dentro da caverna e por isso era necessário segui-lo para conhecer seu fim. Chegou-se a um momento em que a água batia em meu pescoço e o teto infestado de estalactites iniciava-se na minha cabeça. Em uma situação de chuva, o nível da água poderia subir rapidamente afogando a todo nosso grupo. Mas tudo estava previsto e bem coordenado: sabia-se da existência do lençol freático, conhecia-se seu nível e também estudou-se a previsão do tempo com muita dedicação. Tudo estava bem calculado.

Por fim, chegamos a parede que terminava a caverna. Como toda caverna guarda seus mistérios, alguns por milhares de anos,  através desta parede havia uma passagem por baixo da água que levava a outra camara. É preciso mergulhar todo o corpo na água identificando a passagem. Ao chegar na nova camara, um espetáculo:  havia ainda uma cascata dentro da caverna! O valor da experiência  é que a cascata estava lá, e só podia ser vista por aqueles que tivessem coragem suficiente para contempla-la. Isso eu chamo de prêmio.

Este era o ponto final da exploração. Todo o grupo se abraçava mediante aquele espetáculo com muita emoção. São momentos que guardamos por toda nossa vida e nos faz valorizar ainda mais o sentimento de “um dia após o outro”.

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