Acompanhando a Missão da Curiosity em Marte – JPL

Em uma noite fria de São Paulo, partimos do Aeroporto de Guarulhos em direção a Califórnia, mais precisamente para a cidade de Pasadena, nos Estados Unidos.

O objetivo de minha missão era levar 4 estudantes brasileiros (Ana Vitorino, Lucas, Hermério e Monique) do curso de Astronomia de Campos de Goitacazes no interior do Rio de Janeiro, ministrado pelo experiente doutor Marcelo Souza, em direção ao JPL, sigla para Jet Propulsion Laboratory.

A partir de lá, poderíamos acompanhar ao vivo mais um capitulo da História de nossa civilização, ou melhor, explicando em palavras, estávamos acompanhando os preparativos para o primeiro capítulo da aventura de descoberta de vida em outro planeta, em Marte!

Naquela altura, pouco sabia se realmente poderíamos prestigiar tal evento de dentro deste importante complexo gerenciado pela NASA, mantido e conduzido por recursos internacionais privados. O JPL mantém o nome de Laboratório de Propulsão até hoje, apesar de não realizar mais pesquisas deste tipo.

O objetivo atual do JPL é construir, enviar e acompanhar sondas interplanetárias de todos os tipos, recebendo pesquisas e análises realizadas em tempo real por várias sondas, desde satélites, robôs ou rovers, decifrando links de informação emitidos dos locais mais inóspitos do universo. Em outras palavras, estas sondas são nossos cientistas cibernéticos, capazes de sobreviver em ambientes onde o homem ainda não pode chegar, seja pelo custo, seja pela deficiência fisiológica e tecnologia de sobrevivência para nosso corpo.Uma coisa é certa, o homem tem feito sua parte e é uma questão de tempo para chegarmos lá. Neste caso em específico, estávamos nos dirigindo para assistir o pouso da Sonda Curiosity no Planeta Vermelho. Foram 8 anos de trabalho árduo de cientistas do mundo todo, e não se poupou dinheiro nesta empreitada, algo como 2,5 bilhões de dólares, só para se entender a significância do que se pode ser descoberto e o que isso representa em termos históricos e científicos.

A Curiosity é um projeto revolucionário, foi lançado pelo foguete Atlas V em 26 de novembro de 2011 e neste ano eu estava por lá, no Kennedy Space Center acompanhando os preparativos, mas agora, 9 meses depois viajando pelo espaço num trajeto de 570milhões de quilômetros da Terra, ele estava prestes a realizar o momento mais crítico da missão, ou seja, pousar.  Era isso que eu queria presenciar, o primeiro passo e o sucesso desta importante  e crucial etapa.

Tudo precisa acontecer perfeitamente como planejado, ou, todo o trabalho acabaria ali. Nesta corrida espacial, uma sonda russa havia tentado esta mesma proeza meses antes, mas falhou em contato com a atmosfera marciana, perdendo-se para sempre todo o trabalho.

Mas  este rover, a Curiosity,  tinha enormes expectativas de sucesso: ele é considerado um grande salto evolutivo na história dos robôs interplanetários de pesquisa.

Primeiro, porque até então não se envolvera uma quantidade de nações no projeto tão significativo quanto neste, mais de 15 países no total. Segundo porque se avaliarmos que os rovers sempre tiveram em média não mais que 200 kilos, a Curiosity tinha uma tonelada. Era como comparar um brinquedo de controle remoto a um jipe. É o robô de exploração mais ambicioso já construído , de capacidade de análise geoquímica exuberante, com nada menos que 17 super cameras com capacidade de envio de mais de 250mil fotos.  Isso  sem contar o campo angular de imagens  que ajudam a equipe no JPL  a escolher o melhor trajeto para navegação e exploração do  terreno, obtendo-se deste modo a escolha de melhores amostras. Ele tem acoplado em seu corpo pelo menos  10 tipos de análises experimentais a bordo,  podendo ainda carregar lâminas de perfuração de rocha, braços para coletar, analisar e identificar os componentes químicos – um verdadeiro kit completo laboratorial, “o canivete suíço dos robôs”!

Para se ter uma ideia em termos de inovação, em um de seus braços foi desenvolvido um laser chamado  ChemCam , que emite feixes de 5 bilionésimos de segundo apenas para separar os átomos da amostra e ampliar os espectros de análises. Incrível!

A Curiosity foi feita com motor movido a energia nuclear, com duração quase infinita, mas o fato de não haver humanos em Marte para poder lubrificá-lo, limpá-lo e prosseguir com as manutenções necessárias, certamente as tempestades de areia abreviarão muito sua vida útil.

 

Pois é amigos, não estávamos mais enviando um brinquedo e sim uma máquina extremamente adaptada para sobreviver em ambiente inóspito, com ferramentas de precisão de corte e coleta de rochas, gerando informações e analisando amostras a partir de sub-laboratórios acoplados em sua estrutura, de forma muito mais rápida e precisa que nenhuma outra sonda jamais fez. Tudo isso para aumentar suas chances de sucesso na missão de encontrar vida (ou restos dela) a milhares de quilômetros de nosso planeta mãe.

Até mesmo os pneus, por mais que não se enxergue propriamente o fator tecnológico,  foram projetados com grandes sulcos que deixam marcas no terreno. Estas marcas montam uma régua no terreno e ajudam a confirmar no vídeo o espaço caminhado, além é claro de proporcionar excelente navegabilidade.

Ora, tanto trabalho justifica-se: a descoberta de sais em paisagens áridas e os imensos canais provam que no solo marciano houve rios e oceanos iguais aos da Terra.  Foram encontrados vestígios de carbonatos, a principal assinatura de vida, assim como outros elementos importantes como enxofre, ferro e alumínio…por fim, desde 2008 confirmou-se a existência de água, embora  seja na forma de gelo, já que a água em forma líquida evaporou-se junto com a baixa gravidade, espera-se encontrar em forma liquida desta vez. Não será uma tarefa fácil, o planeta esta infestado de radiação e o clima é violentamente frio, criando um ambiente hostil ao surgimento ou permanência da  vida.

E desta forma foi, que chegamos em Pasadena, desembarcando do Aeroporto de Los Angeles. De lá pra NASA, teríamos que alugar um carro e viajar mais 40 quilômetros até o evento. Sobraria tempo para conhecermos o famoso Observatório Griffith, do alto das colinas de Los Angeles e de onde se tem uma vista deslumbrante da cidade, podendo-se tirar uma bela foto com a placa de “Hollywood” ao fundo. A famosa foto que todo turista precisa para alimentar seu ego do “eu estive lá”.

Como tudo nos Estados Unidos, o observatório não só é aberto ao público, mas também da um show de infra-estrutura, um exemplo importante para nós em terra tupiniquins. Localizado dentro de um parque com vasta vegetação e vagas para carro, é possível entrar e visitar o museu gratuitamente, tirar fotos das enormes e antigas estruturas de observação das estrelas e tomar um banho de conhecimento com suas pesquisas e mostras, muitas delas interativas. Por fim, é possível almoçar em um restaurante com uma vista belíssima de Los Angeles  e gastar um dinheirinho com compras “nerdianas”.

No dia seguinte, partiríamos para conhecer as instalações da NASA e talvez prestigiarmos o pouso ao vivo da Curiosity, quem sabe?

Chegamos a porta de entrada do JPL e na guarita nos identificamos com a reserva da Agencia Marcos Pontes, pois tínhamos horário marcado com uma visita guiada com um dos funcionários do JPL.

A funcionária Krystie era uma canadense que nos recebeu de braços abertos. A visita começaria a partir da recepção, onde nossos nomes precisavam constar na lista e nossos passaportes teriam de ser momentaneamente confiscados até o término do passeio.

Devido ao evento que lá aconteceria, haviam diversas redes de televisão do mundo inteiro, estavam por todos os lados e o movimento no laboratório estava muito acima da média.

A visita ao centro tecnológico começou com uma caminhada a pé pelas ruas do complexo, a uma temperatura nada convidativa de 34 graus celcius, com o ar seco e poluído daquele rigoroso verão californiano. Nossa sorte, era que a cada prédio que entravamos, podíamos nos deliciar com os potentes sistemas de refrigeração tão comuns e eficientes dos americanos.

O primeiro prédio visitado era nada mais, nada menos, que o laboratório de onde se construiu a Curiosity. Fomos levados pelos caminhos reservados aos visitantes, um atalho lateral de onde tínhamos a visão por um aquário do laboratório, já que para entrar de fato seria preciso vestirmos roupas especiais, passarmos por diversas baterias de ventos, salas de isolamento e tuneis de esterilização, para daí então chegarmos do lado de dentro.

Como não éramos cientistas, o máximo que podíamos era bisbilhotar das belas janelonas de vidro, nada mal, apesar que eu adoraria ter a oportunidade de sentir o cheiro d o ambiente mais limpo do mundo, tudo para evitar-se a contaminação do laboratório e a inadequação da obtenção dos resultados da vida extra-terrrena. O Curiosity  não poderia levar mais que 500mil esporos bacterianos para  ir a Marte, assim sem comprometer os resultados dos experimentos. Isso, acreditem, é ultra limpo!

Lá, podia-se ver partes sobressalentes de diversas sondas e também o inicio da construção de um satélite, até então não revelado.

Partindo deste prédio, caminhamos até o laboratório de simulação, de onde presenciamos a única replica funcional da Curiosity existente. Esta copia estava ali para casos preventivos com sua irmã gêmea a 500 milhões de quilômetros, já que era deste protótipo que poderia-se concluir soluções e encaminhar ao centro nervoso de operações.

E enquanto alguns deles mexiam no motor de propulsão radioisótopo , avistamos próximos a esta sonda um pato de borracha repousava em cima de uma pedra marciana, como a nos dizer comicamente: em caso de encontro alienígena, o que fazer?

 

Da mesma forma, by the american way, pode-se ver todo o laboratório sem atrapalhar o trabalho dos cientistas, em plena contagem final para o pouso da sonda.

Caminhando mais um pouco, finalmente chegamos ao centro operacional da sonda. Ou melhor, das sondas: eram telões e computadores por todos os lados, pois dali não se acompanhava apenas a Curiosity, mas divervas outras sondas interplanetárias que mantinham seu trabalho solitário pela imensidão do universo.

A moderníssima sala de operações dava uma ideia do que estava por vir. Assistindo as telas, cada sonda ainda operante no espaço mantinham sua rotina mandando dezenas de informações por minuto, que chegavam na tela criptografados como imensos links incompreensíveis de URL. Isto por si só dava uma ideia do volume de conhecimento gerado naquele centro de pesquisa . Enquanto todos funcionários trabalhavam no computador, estavam na verdade se comunicando com Júpiter, Saturno, Urâno ou mesmo no exemplo da Voyagger (que podia-se ler em sua tela links bem mais espaçados e fracos) algum lugar perdido em um canto do universo.

 

O que mais me chamou a atenção era um pequeno joystik, nada diferente de qualquer produto de entretenimento repousando em uma das mesas. Quem manejaria este controle  logo mais era Paolo Bellutta, um italiano naturalizado americano que era nada menos que o Driver da Curiosity.Em tempo,  solicitei que ele autografasse minha camiseta o qual ele riu descontraidamente, mas é claro que não podia perder a oportunidade  de tirar uma foto com ele também.

Tudo muito lindo, até que a decepção veio, como se era de esperar, quando nossa guia informou que não poderíamos assistir o evento de dentro do laboratório (off course!) e então nos dirigimos a uma sala de imprensa da Mars Society, que realizava um congresso a poucos metros dali.

A Mars Society é uma entidade focada nos estudos e acompanhamentos dos avanços sobre o Planeta Marte, uma verdadeira legião de fanáticos sobre o assunto que interagem como observadores e consultores sobre este tema para a NASA. Ora, se por um lado eu havia ficado decepcionado em assistir através de um telão e não da sala “D”, por outro fiquei “ abestado” sobre quem seriam meus novos companheiros de festa: estavam lá o vice-presidente da Virgin Galactic, o presidente da Space-X, diversos astronautas, destacando-se entre eles Story Musgrave ( o único a voar em todos os 5 ônibus espaciais e responsável por instalar o telescópio Hubble em órbita) e por fim, nada menos que Buzz Aldrin, membro da primeira tripulação a pisar na Lua, a Apollo XI.

Aliás, pra mim estava meio impossível desgrudar- me desta lenda. Eram tantos nomes “dando sopa” no local que ficava difícil entender a falta de bajulação. E enquanto o papo era sobre a polêmica do local de pouso escolhida, que poderia ser Glenelg, um local repleto de rochas minerais com possíveis fosseis orgânicos, o material da vida, ou a Cratera Galé com seus  2,4 bilhoes de anos de historia marciana para ser desvendada, haviam 400 cientistas debruçados por ali.
Já era noite do dia 6 de agosto, estávamos todos acompanhando lado a lado, cada passo da missão, e aquele telão parecia aquelas reuniões pra jogo de copa do mundo. E conforme a contagem regressiva para a entrada na atmosfera marciana se aproximava, um fato não menos intrigante deixou a todos na sala de cabelos em pé: a menos de 2 minutos do impacto com a atmosfera, a transmissão via internet com o robô literalmente caiu, causando grande furor e expectativa na sala.

Alguns se levantaram da cadeira com as mãos na cabeça e com a face visivelmente desolada. Mas depois soubemos que foi apenas uma pane causada pelo impacto com a atmosfera e que a instabilidade estava prevista. Imagine a cena: foram 7 minutos de pavor, onde a sonda desaceleraria de 21mil km/h para zero, um super paraquedas supersônico capaz de diminuir a queda de 1600km/h para 320km/h  e depois uma grua computadorizada deveria ajudar a pousar sem a ajuda remota humana, totalmente computadorizada.

Ora, um sinal de rádio cair a milhares de quilômetros de distancia devido a uma ação extremamente rigorosa da sonda na reentrada, não era nada pra se reclamar.

Assim, em pouco tempo o contato foi reestabelecido, e a sonda pousou as 21h31 horário local com sucesso! A confirmação do pouso com as palavras “We got it” chegou acompanhada da explosão dos observadores, que pularam e abraçaram-se como em um gol em final de campeonato de futebol. Estouros de garrafa de champagne eram ouvidas aos brados de “U-S-A, U-S-A, U-S-A”! E enquanto a emoção imperava, com alguns cientistas chorando como criancinhas no playground, 2 minutos depois alguém gritou “we have one email” e logo apareceu na tela o que seria a primeira foto de Marte enviada pela Curiosity. E mais um gol de emoções na plateia, com aplausos e comemorações!

Depois da primeira foto ultra comemorada em preto e branco, onde não se via nada a não ser uma sombra da perna da Curiosity ao chão, de repente muitas outras começaram a aparecer seguidamente na tela, cerca de uma foto por segundo, em cores e alta definição com uma visão panorâmica de Marte. Aquela metralhadora de fotos aparecendo no telão era um verdadeiro orgasmo nerdiano.

E desta forma, mais uma missão foi cumprida. Um momento da história revelada de perto. Eu estive lá e pude notar a incrível dedicação de homens desbravando mais um dos mistérios do universo. A busca por traços de vida extra-terrena agora pode ter seus dias contados. De fato, para estes cientistas e apoiadores no projeto, o céu não é o limite!

fotos no link: http://www.marcospalhares.com.br/project/jet-propulsion-laboratory-nasa/

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Comentários
  • Catherine
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