Astronauta pioneiro na Lua Neil Armstrong esteve no Brasil 2 vezes

No dia 17 de outubro de 1966, Neil Armstrong e Richard Gordon chegaram a Brasília acompanhados de suas esposas, do vice-diretor da Nasa, George Low e também dos outros integrantes da comitiva, sendo recebidos pelo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, John Tuthill. Na capital brasileira os astronautas cumpriram uma programação formal, sendo apresentados como “emissários do presidente Johnson”, o que de fato eram. Um astronauta naqueles tempos era como ser um astro de cinema e a vida pessoal dos mesmos era mostrada como exemplar, pelo menos era o que a Nasa informava.

O Homem que futuramente colocaria os pés na Lua pela primeira vez era piloto de testes, voando em mais de 200 modelos diferentes, um deles o famoso X-15, um verdadeiro “avião-foguete”, que chegou a superar a barreira dos 6 mil quilômetros por hora de velocidade (acima, Armstrong diante do X-15 e a aeronave no National Air and Space Museum de Washington). Neil Armstrong candidatou-se em um programa para a preparação de futuros astronautas realizado pela National Aeronautics and Space Administration, a Nasa. Armstrong comandou a Missão Gemini VIII em março de 1966, a qual teve como destaque a primeira acoplagem feita no espaço, com o veículo não tripulado Agena, mas a missão enfrentou percalços. Após conectar-se, a capsula da Gemini começou a girar sobre si mesma (junto com o Agena) de modo contínuo, obrigando os astronautas a realizarem uma desconexão abrupta. Mesmo assim, a Gemini continuou a girar de forma descontrolada, realizando uma rotação por segundo, o que levaria os astronautas ao desmaio e consequentemente à morte. Para que o problema fosse resolvido, foram acionados os propulsores de reentrada na atmosfera terrestre, gastando o combustível e encerrando a missão.

Richard Gordon, ex-capitão da Marinha dos Estados Unidos e que tinha, como seu colega, experiência em pilotagem de aviões a jato. Gordon havia participado, apenas um mês antes, do voo da Gemini XI (penúltima missão desse programa). Na oportunidade fez um passeio no espaço (fora da cápsula Gemini) que durou 44 minutos. Tanto Gordon como Armstrong passaram para o Projeto Apolo. Gordon participou da Apolo 12, porém sem descer na Lua, permanecendo em órbita no módulo de comando. A grande oportunidade de Richard Gordon de deixar a sua marca em solo lunar viria com a Apolo 18. Viria, pois antes dessa missão ir ao espaço, o Programa Apolo foi cancelado pelo presidente Richard Nixon. O custo do programa espacial atingiu valores astronômicos, para utilizar um termo familiar aos engenheiros aeroespaciais e que deixou sequelas na economia dos Estados Unidos, da mesma forma que a intervenção na Guerra do Vietnã para evitar que aquele país se tornasse comunista (e que resultou em derrota).

Os mesmos deram entrevistas aos jornalistas, reforçando mais uma vez que o programa espacial tinha fins pacíficos e que o mesmo contava com a colaboração de 71 países, por meio da troca de informações científicas. Dentre esses países faziam parte o Brasil e pasmem, a própria União Soviética. Claro, uma troca de informações que não incluía o núcleo de conhecimento considerado estratégico e exclusivo dos Estados Unidos. Ainda na entrevista, os astronautas relataram, a pedido dos jornalistas, as sensações sentidas no espaço, sobretudo nos passeios fora da nave.

Mas, lembremos, estávamos na Guerra Fria e o Brasil era governado por uma ditadura militar favorável aos propósitos dos Estados Unidos de conter o comunismo. O governo brasileiro era encabeçado pelo general e presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. Na visita à Universidade de Brasília, os astronautas realizaram uma palestra, com projeção de várias imagens referentes aos voos espaciais. Em um intervalo da projeção, estudantes que se encontravam no auditório resolveram levantar uma faixa onde se lia “Primeiro Paz na Terra: Fora do Vietnã”. Agentes da segurança recolheram a faixa, houve um murmúrio e enfim, a palestra teve continuidade. Tratava-se de uma contestação à propaganda do governo dos Estados Unidos, o qual reiterava ser a sua política externa pacífica. O conflito no Vietnã (como o anterior na Coréia), mostrava que a guerra era fria apenas no nome. No dia seguinte, 18 de outubro, os dois astronautas já se encontravam no Rio de Janeiro, para outra maratona de atividades oficiais e que, desta vez, contaria com um passeio em carro aberto pelo centro da cidade.

Os astronautas estiveram no Monumento aos Heróis da Segunda Guerra, onde depositaram flores, depois em um almoço no Hotel Glória oferecido pelo governador do antigo Estado da Guanabara, Negrão de Lima e em um encontro com jornalistas na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Na entrevista coletiva os astronautas responderam a várias perguntas, entre elas as possibilidades das mulheres irem ao espaço. Richard Gordon argumentou que se as mesmas estiverem preparadas e em boas condições físicas, poderiam participar de voos espaciais no futuro. Nesse quesito, os soviéticos estavam bem à frente, pois em junho de 1963 a cosmonauta Valentina Tereshkova já havia ido ao espaço. O vice-diretor da Nasa, George Low, afirmou que esperava que os norte-americanos chegassem na Lua antes dos soviéticos, a fim de cumprir a promessa do ex-presidente John Kennedy, de colocar um homem na Lua e traze-lo de volta em segurança, até o final da década de 1960.

No segundo dia de visitas ao Rio ocorreu o já citado encontro com o presidente Castelo Branco, um notório americanófilo (simpático aos Estados Unidos) desde os tempos em que serviu na Segunda Guerra Mundial, nos campos de batalha da Itália, onde travou uma forte amizade com o general estadunidense Vernon Walters, que depois se tornou vice-diretor da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). No encontro com Castelo foi entregue a este uma carta do presidente Lyndon Johnson, o qual destacou a cooperação entre a Nasa e a Comissão Brasileira de Atividades Espaciais (na foto acima, os astronautas acenam para a multidão na Avenida Presidente Vargas). Interessante notar que vários jornais, entre eles o Estado de S. Paulo, designavam Armstrong e Gordon como cosmonautas, termo aplicado aos soviéticos e não aos norte-americanos, chamados apenas de astronautas.

O programa oficial incluiu uma visita a Pontifícia Universidade Católica do Rio, onde ocorreu um encontro com estudantes e ao Itamarati. No terceiro dia, Armstrong e Gordon tiveram uma folga e aproveitaram para conhecer o Rio ao lado de suas esposas.

Na manhã de sexta-feira, dia 21 de outubro, Armstrong, Gordon e toda a comitiva chegaram a São Paulo desembarcando no aeroporto de Congonhas. De lá, saíram em cortejo de carro aberto até o Palácio dos Bandeirantes, para um cafezinho com o governador Laudo Natel, o qual foi presenteado com um álbum de fotos tiradas do espaço.

Do Palácio a comitiva dirigiu-se, mais uma vez em carro aberto, para o Othon Palace Hotel, na Praça do Patriarca (bem em frente a atual Prefeitura de São Paulo), passando pelas ruas Dom José de Barros e Barão de Itapetininga, além da avenida São João. A beleza arquitetônica e paisagística da capital paulista podia ser vislumbrada pelos visitantes.  No hotel, um encontro com a imprensa e uma bateria de questões propostas por jornalistas, não faltando até mesmo perguntas referentes a discos voadores, tema em voga naqueles tempos. Deste local  Neil Armstrong e Yuri Gagarin estiveram lá, já que este último coincidentemente havia se hospedado neste Hotel alguns anos antes, em 1 de Agosto de 1961, cerca de 4 meses após ser o primeiro ser humano lançado ao espaço. Difícil imaginar que o Hotel que recebia celebridades do nível da rainha do Inglaterra naquele tempo,  viria a falir com dívidas astronômicas. Foi invadido por sem tetos, mendigos, desocupados e drogados durante vários anos. Diversos ítens históricos ficaram em estados lastimáveis, foram surrupiados, estragados e destruídos, sendo este edifício das celebridades quase renegado e implosão. Uma liminar da Justiça concedeu a reintegração de posse ao Estado e uma empresa de limpeza foi contratada para dar cabo a toneladas de lixo. Enfim, depois de rápido almoço naquele que já foi o mais importante restaurante da cidade, no 41ºandar com vista panorâmica para o Vale do Anhangabaú, foi a vez da recepção do prefeito Faria Lima e uma visita ao Monumento das Bandeiras de Victor Brecheret, ao lado do Parque do Ibirapuera. Lá, mais perguntas repetitivas de jornalistas, do tipo: como é a Terra vista do espaço? Um fato interessante de ser registrado foi a ida da comitiva ao Museu da Aeronáutica no Ibirapuera, na época instalado no prédio da Oca.

(nas fotos, de cima para baixo, os astronautas diante do Monumento das Bandeiras). Os astronautas prestaram uma homenagem a Santos Dumont, não como inventor do avião, mas oferecendo uma placa comemorativa, onde o brasileiro era lembrado por sua contribuição ao avanço da ciência aeroespacial. Ah, entre as atrações vistas no Museu estava uma réplica do 14 Bis (primeiro veículo mais pesado que o ar a levantar voo) e o hidroavião Jahu, que fez a viagem épica entre Gênova e São Paulo no ano de 1927, sob o comando de João Ribeiro de Barros, sendo a primeira travessia sem escalas pelo Atlântico-Sul. Segundo nos mostra a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, os dois astronautas mostraram interesse em saber detalhes das duas aeronaves, o que foi explicado por Ada Rogato, outra pioneira da aviação (a primeira aviadora a atravessar os Andes e a realizar uma viagem completa pelas Américas até o Alasca). Portanto, em termos de aviação, havia muito a ser mostrado aos visitantes em nosso país.

Ainda no Museu da Aeronaútica, Neil Armstrong e Richard Gordon receberam condecorações dadas por oficiais da Força Aérea Brasileira. À noite, Armstrong e Gordon participaram de uma palestra na Universidade Mackenzie a fim de dar informações sobre o Projeto Apollo e destacar o objetivo maior do mesmo: alcançar a Lua. Todo o roteiro teve a rigorosa cobertura do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).  Na manhã do dia seguinte a comitiva com os astronautas partiu de São Paulo rumo ao Paraguai.

Após a viagem espacial que o consagrou, Armstrong fez uma nova visita ao Brasil, com seu colega de Apollo 11, Michael Collins, em 1969, ocasião em que chegou a ser entrevistado pela apresentadora Hebe Camargo. Neil Armstrong veio a falecer em 2012 com 82 anos e Richard “Dick” Gordon, que deveria também ter colocado os seus pés na Lua, morreu em 2017 aos 88 anos.
A Imagem Histórica  pertence ao acervo do jornal O Estado de S. Paulo.

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